O paradoxo de um sistema financeiro mais inclusivo e regulado

“O momento é agora.” Com esse senso de urgência, Dan Schulman, CEO do PayPal norteou o que veríamos por dois dias de palestras sobre o sistema financeiro no MoneyConf – evento global de tecnologia financeira que acontece desde 2015. O evento, também criado por Paddy Cosgrave, foi abraçado pelo irmão mais velho – Web Summit […]

Por Danielgizo
Publicado em 14/01/2021

“O momento é agora.” Com esse senso de urgência, Dan Schulman, CEO do PayPal norteou o que veríamos por dois dias de palestras sobre o sistema financeiro no MoneyConf – evento global de tecnologia financeira que acontece desde 2015. O evento, também criado por Paddy Cosgrave, foi abraçado pelo irmão mais velho – Web Summit – e segue como trilha da maior conferência de tecnologia no mundo desde o ano passado. Este ano, deu a tônica da digitalização do dinheiro para a próxima década.

Grandes bancos, fintechs e outras empresas de tecnologia do setor tiveram momentos dinâmicos de discussão sobre os impactos de 2020 na bancarização, segurança, uso de tecnologias nas transações financeiras e apoio aos diversos segmentos de atendimento das marcas. Diferentemente de outras crises, em que o setor financeiro estava encurralado no corner como responsável, este foi um ano de redenção para muitos. Como ajudar clientes, pequenos negócios e grandes categorias a seguir operando quando o consumo diminui consideravelmente e as perspectivas de futuros estão ofuscadas?

O foco do momento é na digitalização do dinheiro. Seja pela visão de Dan Schulman, que incorporou o uso de criptomoedas no PayPal em 2020, seja pela realidade de pagamentos digitais entre países africanos apresentada por Olugbenga Agboola, CEO e fundador da Flutterwave.

"Goste ou não, o dinheiro já é digital. São zeros e uns. Temos esse conceito arcaico de pensar em cédulas e moedas. Sinto que a evolução para um mundo sem dinheiro físico teve um turbo de dezanos na direção certa", afirmou Anne Boden, CEO do Starling Bank. A fintech de serviços bancários alcançou lucros pela primeira vez desde seu lançamento, em 2014. Aliás, essa é uma conquista para poucas startups do setor. Anna acredita que as fintechs têm um papel importante na relação com os grandes bancos: "Se nós conseguimos entregar valor para nossos clientes com boas experiências sem uma agência física, os grandes bancos também conseguem.

"Por isso, bancos como Bank of America reforçam a estratégia de estar mais em destaque dentro das carteiras (sejam elas físicas ou digitais) de seus clientes do que na rua. A conversa com a CTO Cathy Bessant, no primeiro dia, destacou essa abordagem top of the wallet. A ideia é que o banco tenha presença flexível durante a experiência de consumo de seus clientes, para que ele tenha o banco com ele em qualquer lugar onde consuma. Se o banco fecha parceria com ecossistemas insulares – jardins murados como Apple ou Google –, corre o risco de trazer fricção para o clímax do relacionamento bancário: a hora da compra. A intenção é ser lembrado sempre.

No segundo e último dia de discussões da MoneyConf, teve destaque o pensamento de Nikolay Storonsky, CEO do Revolut, challenger bank inglês, quanto ao exemplo da bancarização asiática e à regulamentação dos serviços das fintechs. "A diferença do leste para nós é que temos aqui instituições centenárias coordenando todos os processos com pouca gente de tecnologia envolvida. Lá, eles estão correndo sem as amarras da regulamentação porque fazem parcerias com bancos. Se não fazem isso, ficam sem velocidade", disse. Ainda lembrou que já tentou esse caminho: "Tentamos esse modelo no início e não deu certo. O melhor foi aceitar os rituais para entregar novos produtos com aprovação dos reguladores e entrar no mercado no ritmo do sistema."

O que fica para os próximos anos? Um ambiente ágil, muito mais competitivo e com big techs e fintechs participando proativamente de um setor muito mais regulamentado do que hoje. A estratégia é chegar antes e servir de benchmarking para a regulamentação acontecer. Voltando à urgência de Schulman, ele reforça: "Acredito que se você pode criar um sistema financeiro, uma nova tecnologia que é mais rápida, barata e eficiente, que é boa para trazer mais pessoas para dentro, para inclusão, para ajudar a reduzir custos, para contribuir com a saúde financeira de tantas pessoas, eu fico muito otimista no longo prazo para que aconteça essa digitalização. Só há uma maneira de abordar isso, e é trabalhando em conjunto com os reguladores.”

Publicado originalmente em 14/01/2021 no Acontecendo Aqui.